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Israel na guerra: Por que o país parece menos…
A guerra envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel produziu uma impressão clara: entre os três, Israel teria sido o menos prejudicado e, em certos aspectos, até beneficiado. Essa percepção não surgiu do nada. Ela foi alimentada por três fatos concretos. Primeiro, a economia israelense não entrou em colapso, mesmo sob forte pressão militar e fiscal. Segundo, os mercados locais reagiram melhor do que muitos esperavam, com valorização do shekel e alta da bolsa em momentos decisivos do conflito. Terceiro, a ofensiva contra o Irã reforçou a percepção de redução de algumas ameaças estratégicas de longo prazo, algo que interessa não apenas ao governo, mas ao mercado e ao establishment de segurança.
No entanto, essa leitura precisa de qualificação. Israel foi relativamente menos prejudicado do que o Irã, sem dúvida. Também foi menos vulnerável do que muitos importadores líquidos de energia, sobretudo na Europa, ao menos no curto prazo. Mas isso não significa que o país tenha saído ileso, nem que Benjamin Netanyahu tenha convertido ganhos militares em capital político sólido. Pelo contrário, os dados recentes mostram uma dinâmica mais complexa: a economia segue crescendo, porém abaixo do que se projetava antes da guerra com o Irã; o orçamento foi fortemente militarizado; o déficit aumentou; a política monetária ficou travada; e, no campo político, Netanyahu não obteve o impulso que muitos aliados esperavam.
O primeiro ponto: Israel entrou na fase mais aguda do conflito em posição macroeconômica muito mais forte
A comparação com o Irã começa aqui. Israel chegou a 2026 com uma economia funcional, integrada aos mercados globais, com moeda conversível, capacidade de financiamento e instituições econômicas operando normalmente. Dados oficiais divulgados recentemente mostram que o PIB israelense cresceu 3,1% em 2025, após expansão de apenas 1% em 2024, e o quarto trimestre de 2025 avançou a uma taxa anualizada de 4,0%, sinalizando retomada antes da escalada mais intensa com o Irã. O Banco de Israel, naquele momento, projetava crescimento de 5,2% para 2026, desde que o ambiente de segurança melhorasse.
Mesmo depois da guerra com o Irã, o cenário continuou sendo de desaceleração, não de colapso. Em março de 2026, o Banco de Israel reduziu sua projeção de crescimento para 3,8% em 2026, partindo da hipótese de encerramento da fase mais intensa de combate até o fim de abril. Já o Ministério das Finanças trabalhou com um intervalo de 3,3% a 3,8%, dependendo da duração das hostilidades com Irã e sul do Líbano. Isso é importante porque mostra a essência do argumento: a guerra machucou a economia, mas não quebrou a economia. Para um país em conflito simultâneo em várias frentes, continuar crescendo mais de 3% ainda é um sinal de resiliência relevante.
O segundo ponto: os mercados israelenses reagiram melhor do que o esperado
Se a economia real não desabou, os mercados ajudaram a consolidar a impressão de que Israel foi relativamente beneficiado. Logo após a ofensiva conjunta de Israel e EUA contra o Irã, em vários momentos foi registrado alta das ações israelenses, valorização de mais de 1,5% do shekel frente ao dólar e avanço de papéis ligados a defesa e energia. O mercado, naquele momento, leu a operação menos como um evento de descontrole e mais como um movimento que poderia reduzir ameaças estratégicas relevantes à frente.
Essa resposta financeira é central para entender por que tanta gente passou a dizer que Israel “ganhou” economicamente. Em guerra, o normal seria fuga de capital, desvalorização cambial e deterioração rápida dos ativos locais. O que ocorreu, ao menos em janelas importantes do conflito, foi o oposto. Além disso, reportagens recentes mostraram que os ativos globais recuperaram níveis pré-guerra com a perspectiva de cessar-fogo, enquanto o mercado passou a tratar Israel como um país cuja posição estratégica relativa poderia sair fortalecida se os principais vetores de ameaça regional fossem enfraquecidos.
O terceiro ponto: houve ganho claro para setores específicos, especialmente defesa
Uma parte relevante da percepção de benefício veio da composição setorial da economia israelense, especialmente da indústria de defesa. O jornal Le Monde relatou em março que a Bolsa de Tel Aviv vinha sendo impulsionada fortemente por empresas militares, com destaque para a Elbit Systems, que alcançou valuation de cerca de US$ 40 bilhões e se tornou a companhia mais valiosa da bolsa local. A empresa acumulava carteira de pedidos de US$ 25 bilhões, grande parte vinda do exterior, sobretudo da Europa. O mesmo texto observou que o principal índice da bolsa havia subido 75% em um ano e mais que dobrado desde o fim de 2023, apoiado em defesa, tecnologia e na percepção de redução do risco estratégico de longo prazo.
Esse ponto é decisivo, porque ajuda a explicar um aparente paradoxo. A guerra aumenta o custo fiscal e prejudica partes da economia, como turismo e consumo. Mas, ao mesmo tempo, fortalece segmentos diretamente ligados à segurança, tecnologia militar, sistemas antimísseis, drones, guerra eletrônica e inteligência. Em Israel, esses setores não são periféricos. Eles fazem parte do núcleo produtivo mais sofisticado do país. Por isso, uma guerra regional não produz apenas perdas. Ela também gera receitas, contratos, exportações e reavaliação positiva de empresas vistas como fornecedoras de know-how militar testado em campo.
Mas isso teve custo, e o custo foi grande
Dizer que Israel foi “beneficiado” sem medir o preço pago produz uma análise incompleta. O orçamento aprovado em março de 2026 foi profundamente moldado pela guerra. A Knesset aprovou um orçamento de 699 bilhões de shekels, com a defesa consumindo 143 bilhões de shekels, após a adição de 32 bilhões extras ao gasto militar. Como consequência, a meta de déficit foi elevada para perto de 5% do PIB. O próprio Banco de Israel alertou que o ambiente geopolítico inclinava os riscos de atividade para baixo no curto prazo e que o orçamento deveria ser manejado com responsabilidade para não comprometer crescimento de longo prazo e inflação.
Além disso, a Reuters reportou que economistas esperavam manutenção dos juros em 4,0%, justamente porque a guerra com o Irã elevava riscos inflacionários e impedia um processo mais claro de afrouxamento monetário. Em outras palavras, a guerra não destruiu os mercados, mas ajudou a congelar a política monetária. Isso importa porque, para uma economia com forte peso de investimento, tecnologia e crédito, juros parados por mais tempo significam expansão mais lenta do que a que se esperava antes da escalada.
Então por que, apesar desse custo, Israel pareceu menos prejudicado
A resposta está na comparação relativa. O Irã enfrentou choque direto em exportações, câmbio e inflação. Já os Estados Unidos sofreram mais pelo canal de energia, inflação e juros. Israel, por sua vez, operou numa posição intermediária, mas com vantagens específicas. Primeiro, não depende estruturalmente de exportação de petróleo como o Irã. Segundo, não carrega o mesmo tipo de sensibilidade política que a gasolina impõe aos EUA. Terceiro, parte do mercado entendeu que o conflito, embora caro, poderia reduzir a capacidade ofensiva de adversários estratégicos e melhorar a posição de segurança do país no horizonte mais longo. A Fitch, por exemplo, manteve a nota soberana de Israel em “A”, ainda que com perspectiva negativa, e reconheceu que as operações militares recentes provavelmente reduziriam de forma significativa a ameaça iraniana ao país.
Esse é o núcleo da dinâmica. O mercado aceita custo elevado no presente quando acredita que o risco estrutural futuro pode cair. Foi essa expectativa que ajudou a sustentar a moeda, a bolsa e a narrativa de relativa resiliência israelense. Portanto, Israel não saiu “melhor” porque a guerra seja boa para a economia em si. Saiu relativamente melhor porque a estrutura econômica do país é mais robusta, e porque parte dos agentes financeiros interpretou o conflito como potencialmente redutor de risco estratégico de longo prazo.
E Netanyahu, foi beneficiado?
Aqui é onde a análise precisa ficar mais cuidadosa. A figura de Netanyahu foi, sem dúvida, protegida em certa medida pelo contexto de guerra, sobretudo porque o orçamento foi aprovado e o governo evitou eleição antecipada num momento de forte tensão. A Reuters recentemente mostrou que a aprovação do orçamento até o fim de março era essencial para evitar a queda automática do governo, e a guerra ajudou a reorganizar prioridades políticas em torno da estabilidade da coalizão.
No entanto, isso é diferente de dizer que ele saiu politicamente fortalecido de forma inequívoca. A própria Reuters já foi explícita em duas reportagens: a guerra com o Irã não deu impulso relevante às pesquisas e a força militar empregada não se traduziu em ganhos políticos proporcionais. Em março, a agência relatou que os números da coalizão permaneciam praticamente empatados com a oposição, mesmo com a guerra em andamento. Em abril, reforçou que Netanyahu não havia conseguido converter poder de fogo em vitória política clara, porque eleitores ainda questionavam o resultado estratégico final e porque o Irã mantinha capacidade residual importante.
Portanto, a formulação correta é esta: Netanyahu foi menos prejudicado do que poderia ter sido, e a guerra lhe deu fôlego tático para sobreviver politicamente no curtíssimo prazo. Mas isso não equivale, ao menos até aqui, a um ganho político robusto ou definitivo. Ele parece ter colhido alívio, não consagração.
Como fica a conta ?
A ideia de que Israel foi o “menos prejudicado” na dinâmica entre EUA, Irã e Israel tem fundamento, mas precisa ser bem explicada. O país não saiu sem custo. O crescimento desacelerou, o orçamento foi militarizado, o déficit subiu, os juros ficaram travados e setores civis sentiram o impacto da guerra. Ainda assim, Israel apresentou desempenho relativo melhor do que os outros polos do conflito porque entrou nessa fase com economia mais robusta, mercado mais profundo, moeda estável e um setor de defesa capaz de transformar parte do choque geopolítico em ganho corporativo e financeiro.
Do ponto de vista político, a conclusão também exige nuance. Netanyahu evitou um cenário de colapso imediato e preservou sua posição no curto prazo, especialmente ao aprovar o orçamento e manter a coalizão de pé. Mas os dados disponíveis até agora não sustentam a tese de que ele tenha saído claramente fortalecido nas pesquisas. No geral, Israel parece ter sido relativamente beneficiado em percepção estratégica e em reação de mercado. Netanyahu, por sua vez, ganhou tempo, mas ainda não ganhou a narrativa final.









