Evergrande pode causar um crash? Confira as grandes quedas da história do mercado financeiro

Evergrande pode causar um crash? Confira as grandes quedas da história do mercado financeiro

Publicado por Ouro Preto Investimentos – 06/10/2021

Qual é o risco de a gigante imobiliária Evergrande causar um efeito cascata e "derrubar" o mercado financeiro? Confira outros grandes "crashs" da história.

No último dia 20 de setembro, a informação de que a chinesa Evergrande – uma das maiores incorporadoras imobiliárias do planeta – passava a oferecer risco de calote aos seus credores e ao mercado, tomou para si as manchetes econômicas em todo o mundo. O tamanho da dívida da companhia, valor superior a US$ 300 bi, deixou em estado de alerta não apenas aqueles envolvidos diretamente com operações do grupo (responsável por gerar até 3 milhões de empregos indiretos em vários países), mas o mercado econômico como um todo. Afinal, setores fundamentais na economia global, como o da mineração, siderurgia e construção, estão intrinsicamente ligados às atividades da gigante chinesa.

O problema de liquidez da Evergrande, que já oferecia sinais de alerta aos investidores, chegou ao ponto de a empresa não conseguir mais honrar com compromissos no curto prazo. Desde meados de setembro, a empresa passou a vender ativos para captar recursos e a renegociar prazos para pagamentos de juros e dívidas. Entretanto, diante do cenário de insolvência, nem mesmo medidas de intervenção aguardadas pelo mercado, por parte do governo chinês, foram capazes de aplacar a desconfiança e preocupação do sistema financeiro. No último dia 04 de outubro, a Evergrande suspendeu as operações na Bolsa de Hong Kong. Até aquele momento, as ações da companhia registravam queda que beirava os 80%.

Evergrande pode causar “crash” do sistema financeiro?

Para a esmagadora maioria dos analistas econômicos a resposta é não. Há sinais de que a economia real sofra um forte impacto diante da insolvência da imobiliária chinesa, assim como o mercado financeiro. Uma quebra generalizada dos mercados globais, porém, neste momento, é retratada como hipótese altamente improvável, por alguns motivos.

Em primeiro lugar, porque a crise na Evergrande foi um choque, mas não necessariamente uma surpresa. Desde 2020 a companhia oferecia indícios da dificuldade em honrar compromissos que estavam, naquele momento, fixados no médio prazo. Outro ponto a ser considerado são as medidas de intervenção e suporte do governo e órgãos reguladores chineses. Não é esperada uma intervenção total em que o governo atue para recuperar a companhia por completo, mas são cada vez mais fortes os indícios de que deve haver uma ação de resgate, inicialmente a funcionários, fornecedores e credores de menor porte. A compra de ativos da companhia por autoridade chinesas deve auxiliar nesse sentido. Ainda há intervenção governamental para que bancos de crédito facilitem o acesso para compradores de imóveis e o fato de que o Banco Central chinês rapidamente injetou um montante considerável de recursos no sistema financeiro para fornecer fôlego à liquidez nas operações. 

Consequências possíveis para o mercado financeiro

A instantânea queda no mercado acionário é a primeira reação diagnosticada diante dos anúncios de possível insolvência. A preocupação é legítima e inevitável, mas as fortes reações em mercados estrangeiros se devem também ao alto nível de globalização dos investimentos que existe atualmente.

A partir da estabilização dos mercados diante do impacto inicial chega o momento em que cada país passa a considerar a relação dos seus respectivos setores produtivos com o ramo imobiliário chinês que, colossal, responde por mais de 20% do PIB do país. Principal parceiro comercial do Brasil, a China é a maior consumidora do minério de ferro brasileiro, entre outros commodities. É preciso acompanhar de perto o quanto este cenário no país asiático afetará essa balança comercial e, além disso, o quanto irá impactar setores imobiliários mundo a fora. 

Grandes quedas da história do mercado financeiro

Se por um lado a Evergrande aparenta afetar mais significativamente a economia real do que propriamente criar uma crise sistêmica em mercados financeiros globais, outros “crashes” no passado – de fato – geraram um efeito dominó nas bolsas dos principais mercados mundiais. Vamos relembrar alguns deles?

Lehman Brothers e a crise do subprime

Desencadeada em 2007, a partir da queda abrupta do índice Dow Jones, a chamada “Crise do subprime” projetou diversos bancos para uma condição de insolvência (mais conhecido entre eles, o tradicional Lehman Brothers) o que cascateou para mercados financeiros em todo o mundo. O mote da crise foi a concessão desenfreada de créditos imobiliários, que só foi possível mediante a falta de regulamentação específica para o mecanismo no mercado americano. A falência de importantes agentes do sistema financeiro diante da “bolha” do mercado imobiliário norte-americano foi responsável pela crise econômica de 2007 e 2008 que atingiu em cheio economias europeias. 

A crise dos tigres asiáticos

Iniciada na Tailândia e impactante em países do sudeste asiático como Coreia do Sul, Malásia, Singapura, Indonésia e Filipinas, a crise dos chamados “Tigres Asiáticos” desencadeou a partir da política monetária de câmbio flutuante tailandesa que afastou o capital estrangeiro e afetou os países vizinhos justamente quando a região surfava em uma onda de crescimento e desenvolvimento econômico. O FMI interveio para auxiliar e evitar que a crise se alastrasse às esferas sociais de outros países, como a Coreia do Sul, por exemplo. Houve grande preocupação que a crise transbordasse para além das fronteiras asiáticas, o que de fato ocorreu, mas as consequências nos Estados Unidos e Europa acabaram sendo administráveis perto do cenário que se postava no horizonte.

A crise dos emergentes

Também chamado de “Efeito Tequila”, pelo fato de ter iniciado no México, a crise dos países emergentes se consolidou em 1994 e foi provocada majoritariamente pela falta de reservas internacionais do país, fator que causou uma abrupta desvalorização da moeda local. A especulação financeira, por sua vez, acelerou a fuga de capitais, colocando o país em uma crise financeira com rescaldo internacional. Todos os países com maior peso de balança comercial estabelecida com o México foram afetados, entre eles o Brasil, que viu a elevação dos juros às alturas em 1995.

A Grande Depressão

A mais reconhecida crise econômica ocidental se deu nos Estados Unidos a partir de 1929. A chamada Grande Depressão é amplamente retratada em filmes, discos e na cultura pop. Iniciada – de acordo com a teoria mais aceita – por uma crise de superprodução do sistema industrial norte-americano, cuja relação oferta e demanda passou a atuar em desequilíbrio desde o final da 1ª Guerra Mundial, a Grande Depressão foi responsável pelo enxugamento das atividades industriais, queda drástica no PIB, altíssimas taxas de desemprego e severa recessão econômica. Seus efeitos foram sentidos paulatinamente em todo o mundo. Trata-se do maior impacto à condição de vida da população norte-americana jamais visto. 

Estratégia antes da ação

A história nos ensinou que a reação sem planejamento, o chamado efeito manada, a ansiedade e a desconfiança desmedida não caminham ao lado de um plano de investimentos sólido. Além do mais, as agências reguladoras, os dispositivos garantidores de crédito e as intervenções de agentes e governos diante de possíveis crises, tornam não impossível, mas mais difícil que uma crise de proporções globais coloque em risco mercados financeiros inteiros e todos os agentes a eles vinculados. Além disso, se por um lado a globalização coloca o capital de todos mais próximo do olho do furacão, ela também garante ao alcance destes bolsos um amplo leque de outras opções de portos-seguros. Para os investidores brasileiros, neste momento, tão ou mais importante do que monitorar de perto a situação do mercado imobiliário chinês, é atentar-se para indicativos e tendências dos próprios setores financeiros e produtivos nacionais. As projeções de PIB e inflação, entre outras sinalizações aguardadas, são bússolas cujo norte é fundamental para dar o direcionamento correto aos investimentos a partir de então.

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